sexta-feira, 22 de junho de 2012

Relator do Mensalão fala ao Polis sobre o interesse pela política atual




O deputado federal, Osmar Serraglio, foi relator de um dos principais escândalos políticos do pais na era Lula.

Jean Patrik Soares

Com vasta experiência no campo político, Osmar Serraglio foi vice-prefeito de Umuarama – PR, de 1993 a 1996, assessor jurídico de várias prefeituras na região Noroeste e Oeste do Paraná, de 1987 a 1997, e, atualmente, está em seu quarto mandato como deputado federal, pelo Paraná. É filiado ao PMDB e teve destaque nacional como relator da CPMI dos Correios, a partir da qual surgiram as investigações do escândalo do mensalão. Formado em Direito, com mestrado em Direito do Estado (PUC-SP), também atuou como professor universitário, na década de 1980. Na entrevista, realizada via e-mail, Serraglio analisa a participação da população no processo político, o papel da imprensa e as transformações na política atual.

Polis: Há vários anos dentro da política, o senhor acredita que, nos últimos anos as pessoas têm se interessado mais com os rumos da política?
Serraglio: É difícil avaliar se o interesse aumentou, porque há uma grande massa que passa ao largo de assuntos políticos. Mesmo quando vota, não o faz de forma refletida, com a consciência de que está escolhendo alguém em quem deveria ter a maior confiança, porque está delegando o poder para que outrem decida sobre sua saúde, a educação sua ou dos seus filhos, a segurança de sua família, etc. Vota-se como desencargo de obrigação. Por outro lado, há, sem dúvida, um aumento de interesse de certa parcela da população, que está acompanhando mais os acontecimentos políticos. O jornalismo político ocupa cada vez mais espaços nos jornais e nas rádios e TVs, o que significa que o interesse está se acentuando.

Polis: Por que no Brasil as pessoas tem tanto preconceito com política? Isso favorece o surgimento de políticos corruptos?
Serraglio: O preconceito decorre da generalização. Alguns políticos desvirtuam sua conduta e isso compromete a classe  É como se do fato de ter alguns juízes corruptos, a magistratura devesse ser desacreditada. Fui Relator da CPI que investigou o “mensalão”. Eram 19 parlamentares envolvidos. A CPI não escondeu nada do público. Também não protegeu ninguém, por ser político. As pressões de nada valeram. Estão respondendo por processo cujo julgamento foi marcado para agosto, no Supremo Tribunal Federal. Somos em 513 deputados. São, assim, menos de 4%. Por que considerar como sendo a Câmara dos Deputados corrupta? O surgimento de políticos corruptos decorre de nossa cultura. Há uma tolerância demasiada. Enfrentei meio mundo para responsabilizar os mensaleiros. No entanto, muitos deles foram simplesmente reeleitos, como se nada tivesse ocorrido. Outro fator que favorece a corrupção é o custo da campanha. O eleitor disputa candidato, para ver quem mais o beneficia.

Polis: Como o envolvimento dos cidadãos com a política social (voluntariado, grupo de mulheres ONGs), aquela que acontece no bairro,  na escola, etc, pode ajudar a tornar a realidade melhor?
Serraglio: Nos Estados Unidos, ninguém conclui ano letivo no segundo grau, sem que comprove ter prestado algum serviço comunitário. Aqui nossa cultura passa distante dessa formação. Temos, sim, pessoas abnegadas, magnânimas, desprendidas, que dão seu esforço e colaboração para reduzir as dificuldades de seus concidadãos. Entre os menos afortunados, a solidariedade existe. A população suporta uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo e ainda precisa trabalhar para suprir serviços que deveriam ser prestados pelo poder público.

Polis: O que deveria ser feito para que as pessoas tivessem mais interesse pela política?
Serraglio: Como disse, é questão de cultura. Isso significa que, quanto mais anos de estudos nossa juventude frequentar, tanto mais elevada será a consciência política, quando adultos. Precisamos, acima de tudo, fazer com que nossa população leia mais.  É através da leitura que o conhecimento se transmite. As maiores inteligências do mundo estão à nossa disposição... e nós não os lemos. Diz-se que há mais livrarias em Paris do que em todo o Brasil. Nosso jornal de maior circulação, a Folha de São Paulo, tem tiragem de 350 mil exemplares. No Japão, que tem sessenta milhões de habitantes a menos, dentre tantos jornais, três deles têm tiragem de mais de dez milhões de exemplares. País que não lê não é país culto.

Polis: Qual o papel da mídia na política atual? Sua atuação ajuda ou atrapalha?
Serraglio: O papel da mídia é fundamental, para que a população tome conhecimento do ocorre, sobremodo do que a atinge. Rui Barbosa disse que a imprensa é os olhos do povo. O jornalismo investigativo é hoje mais atuante que o próprio Parlamento. Basta ver as seguidas denúncias de corrupção que noticia. Na época da CPI, a imprensa me foi fundamental, porque ajudou muito na investigação dos fatos.

Polis: As mudanças partidárias acontecem com grande frequência, a instituição partidária está em crise? Qual o seu futuro?
Serraglio: Já não é mais possível mudar de partido, depois de eleito. O Supremo confirmou a fidelidade partidária. Quem trocar de partido, perde o mandato, salvo se estiver sendo perseguido ou para participar de fundação de novo partido. A instituição partidária está em crise por causa da facilidade para se criar partidos. Temos hoje trinta partidos legalizados. Certamente não há ideologias ou programas tão distintos, que precisem de trinta molduras diferentes.  Basta ver o que ocorre nos países desenvolvidos.  Deveríamos reduzir ao máximo de sete a oito partidos. Com isso seria possível o eleitor acompanhar a coerência e eficiência do seu representante. Com esse número elevado de partidos, temos líderes sem liderados e, o que é pior, mercadores de horário eleitoral, vendendo espaço na TV.

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