O deputado federal,
Osmar Serraglio, foi relator de um dos principais escândalos políticos do pais
na era Lula.
Jean Patrik Soares
Com vasta experiência no campo político, Osmar Serraglio foi
vice-prefeito de Umuarama – PR, de 1993 a 1996, assessor jurídico de várias
prefeituras na região Noroeste e Oeste do Paraná, de 1987 a 1997, e,
atualmente, está em seu quarto mandato como deputado federal, pelo Paraná. É
filiado ao PMDB e teve destaque nacional como relator da CPMI dos Correios, a
partir da qual surgiram as investigações do escândalo do mensalão. Formado em
Direito, com mestrado em Direito do Estado (PUC-SP), também atuou como
professor universitário, na década de 1980. Na entrevista, realizada via
e-mail, Serraglio analisa a participação da população no processo político, o
papel da imprensa e as transformações na política atual.
Polis: Há vários anos dentro
da política, o senhor acredita que, nos últimos anos as pessoas têm se
interessado mais com os rumos da política?
Serraglio: É difícil avaliar
se o interesse aumentou, porque há uma grande massa que passa ao largo de
assuntos políticos. Mesmo quando vota, não o faz de forma refletida, com a
consciência de que está escolhendo alguém em quem deveria ter a maior
confiança, porque está delegando o poder para que outrem decida sobre sua
saúde, a educação sua ou dos seus filhos, a segurança de sua família, etc.
Vota-se como desencargo de obrigação. Por outro lado, há, sem dúvida, um
aumento de interesse de certa parcela da população, que está acompanhando mais
os acontecimentos políticos. O jornalismo político ocupa cada vez mais espaços
nos jornais e nas rádios e TVs, o que significa que o interesse está se
acentuando.
Polis: Por que no Brasil as
pessoas tem tanto preconceito com política? Isso favorece o surgimento de
políticos corruptos?
Serraglio: O preconceito
decorre da generalização. Alguns políticos desvirtuam sua conduta e isso
compromete a classe É como se do fato de
ter alguns juízes corruptos, a magistratura devesse ser desacreditada. Fui
Relator da CPI que investigou o “mensalão”. Eram 19 parlamentares envolvidos. A
CPI não escondeu nada do público. Também não protegeu ninguém, por ser
político. As pressões de nada valeram. Estão respondendo por processo cujo
julgamento foi marcado para agosto, no Supremo Tribunal Federal. Somos em 513
deputados. São, assim, menos de 4%. Por que considerar como sendo a Câmara dos
Deputados corrupta? O surgimento de políticos corruptos decorre de nossa
cultura. Há uma tolerância demasiada. Enfrentei meio mundo para responsabilizar
os mensaleiros. No entanto, muitos deles foram simplesmente reeleitos, como se
nada tivesse ocorrido. Outro fator que favorece a corrupção é o custo da
campanha. O eleitor disputa candidato, para ver quem mais o beneficia.
Polis: Como o envolvimento
dos cidadãos com a política social (voluntariado, grupo de mulheres ONGs),
aquela que acontece no bairro, na
escola, etc, pode ajudar a tornar a realidade melhor?
Serraglio: Nos Estados
Unidos, ninguém conclui ano letivo no segundo grau, sem que comprove ter
prestado algum serviço comunitário. Aqui nossa cultura passa distante dessa
formação. Temos, sim, pessoas abnegadas, magnânimas, desprendidas, que dão seu
esforço e colaboração para reduzir as dificuldades de seus concidadãos. Entre
os menos afortunados, a solidariedade existe. A população suporta uma das
cargas tributárias mais elevadas do mundo e ainda precisa trabalhar para suprir
serviços que deveriam ser prestados pelo poder público.
Polis: O que deveria ser
feito para que as pessoas tivessem mais interesse pela política?
Serraglio: Como disse, é
questão de cultura. Isso significa que, quanto mais anos de estudos nossa
juventude frequentar, tanto mais elevada será a consciência política, quando
adultos. Precisamos, acima de tudo, fazer com que nossa população leia
mais. É através da leitura que o
conhecimento se transmite. As maiores inteligências do mundo estão à nossa
disposição... e nós não os lemos. Diz-se que há mais livrarias em Paris do que
em todo o Brasil. Nosso jornal de maior circulação, a Folha de São Paulo, tem tiragem
de 350 mil exemplares. No Japão, que tem sessenta milhões de habitantes a
menos, dentre tantos jornais, três deles têm tiragem de mais de dez milhões de
exemplares. País que não lê não é país culto.
Polis: Qual o papel da mídia
na política atual? Sua atuação ajuda ou atrapalha?
Serraglio: O papel da mídia
é fundamental, para que a população tome conhecimento do ocorre, sobremodo do
que a atinge. Rui Barbosa disse que a imprensa é os olhos do povo. O jornalismo
investigativo é hoje mais atuante que o próprio Parlamento. Basta ver as
seguidas denúncias de corrupção que noticia. Na época da CPI, a imprensa me foi
fundamental, porque ajudou muito na investigação dos fatos.
Polis: As mudanças
partidárias acontecem com grande frequência, a instituição partidária está em
crise? Qual o seu futuro?
Serraglio: Já não é mais
possível mudar de partido, depois de eleito. O Supremo confirmou a fidelidade
partidária. Quem trocar de partido, perde o mandato, salvo se estiver sendo
perseguido ou para participar de fundação de novo partido. A instituição
partidária está em crise por causa da facilidade para se criar partidos. Temos
hoje trinta partidos legalizados. Certamente não há ideologias ou programas tão
distintos, que precisem de trinta molduras diferentes. Basta ver o que ocorre nos países
desenvolvidos. Deveríamos reduzir ao
máximo de sete a oito partidos. Com isso seria possível o eleitor acompanhar a
coerência e eficiência do seu representante. Com esse número elevado de
partidos, temos líderes sem liderados e, o que é pior, mercadores de horário
eleitoral, vendendo espaço na TV.


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